domingo, 6 de setembro de 2009

Campo de concentração no Sertão Brasileiro

No início do século 20, no Ceará, os Poderes Públicos Estadual e Federal criaram campos de concentração para evitar que flagelados famintos fugindo do sertão semi-árido chegassem a Fortaleza "E você tem visto muito horror no campo de concentração?", pergunta o sertanejo Vicente a Conceição, personagens do romance O Quinze, da escritora Rachel de Queiroz. Os dois conversam não sobre as prisões nazistas construídas durante a Segunda Guerra Mundial, ou seja, quase três décadas depois. O diálogo diz respeito aos currais erguidos no Ceará pelos governos estadual e federal para isolar os famintos da seca de 1915, considerada uma das mais trágicas de todos os tempos no Nordeste. O objetivo dos campos era evitar que os retirantes alcançassem Fortaleza, trazendo "o caos, a miséria, a moléstia e a sujeira", como informavam os boletins do poder público à época. Naquele ano, criou-se o campo de concentração (era assim mesmo que se chamava) do Alagadiço, nos arredores da capital cearense, cenário do livro de Rachel. Ele chegou a juntar 8 mil esfarrapados, que recebiam alguma comida e permaneciam vigiados por soldados.

A segregação dos miseráveis era lei, mas chegou um momento em que o flagelo em massa era tão chocante, com uma média de 150 mortes diárias, que o governo do Estado ordenou, em 18 de dezembro 1915, como contam os arquivos dos jornais da época, a dispersão dos flagelados, ou "molambudos", como eram também conhecidos.Segundo o historiador Marco Antonio Villa, autor de Vida e Morte no Sertão, durante a seca de 1915 teriam morrido pelo menos 100 mil nordestinos. Outros 250 mil migraram para escapar da "velha do chapelão" - como a fome era conhecida no imaginário do semi-árido.

O medo das autoridades diante dos flagelados da seca tinha um antecedente. Em 1877, uma leva de cerca de 110 mil famintos saiu dos sertões e tomou as ruas de Fortaleza, assombrando os moradores que viviam a ilusão, importada de Paris, de urbanismo e civilidade.

No livro A Fome, o mais consistente relato sobre o cenário de 1877 nas ruas da capital, o cientista social e escritor Rodolfo Teófilo assim descreve o que viu: "A peste e a fome matam mais de 400 por dia! O que te afirmo é que, durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar 20 cadáveres: e como seguem para a vala! Faz horror! Os que têm rede, vão nela, suja, rota, como se acha; os que não a têm, são amarrados de pés e mãos em um comprido pau e assim são levados para a sepultura.

E as crianças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas! Pela manhã os encarregados de sepultá-las vão recolhendo-as em um grande saco; e, ensacados os cadáveres, é atado aquele sudário de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura".

Fonte:
Aventura na história
É importante revisitar nossa história. Para refletir nesse 07 de setembro. Beijos!

2 comentários:

Rafael disse...

Triste, mas é a realidade. Ainda falta muito pra essa e outras coisas mudarem. Ainda que seja meio batido dizer isso, a mudança tem que partir da sociedade que tanto exige de seus governantes, mas comete erros muitas vezes mais graves do que aqueles...

F disse...

hmm

ow, vc nao vai postar mais nao?
sumiu.